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SOBRE A HISTÓRIA DE UM LIVRO

José Fernandes de Lima

O inglês é um idioma universalmente utilizado nas transações comerciais e nas relações internacionais.  Uma parte significativa dessa influência se deve ao prestígio de um dicionário.  O Oxford English Dictionary define mais de meio milhão de palavras, é visto como um modelo de perfeição e é todo como o mais definitivo de todos os guias para o idioma que se transformou na língua oficial do mundo contemporâneo. É o mais importante livro de referência já feito no mundo. O OED se destaca de outros dicionários porque foi feito a partir das citações registradas em todas as publicações do idioma.  A primeira edição constituída de doze volumes levou mais de setenta anos para ser elaborada e só ficou pronta em 1928. Até essa data, os dicionários que existiam não passavam de listas de palavras escolhidas ou listas de palavras consideradas difíceis.

Willian Shakespeare, grande escritor inglês, tido como o mais influente dramaturgo do mundo, nasceu em Stratford-upon-Avon, no ano de 1564. Isso significa dizer que, na época em que Shakespeare escreveu suas famosas peças, não havia esse tipo de dicionário para ajudar. Sempre que precisava usar uma palavra incomum, ele tinha que assumir o risco sozinho. Não havia livro nenhum capaz de lhe dizer se a palavra escolhida estava grafada corretamente. Diferentemente do que acontecia naquela época, a língua inglesa conta agora com um grande dicionário. O Dicionário Oxford da Língua Inglesa (Oxford English Dictionary) é um livro muito importante, não só pela influência da língua inglesa, mas também porque ele continua vivo. Todo ano é feito um evento para mostrar as palavras novas que estão sendo incorporadas.

A história da elaboração desse dicionário é fantástica. Podemos dizer que ela teve início em novembro de 1857, quando um sacerdote da igreja anglicana, chamado Richard Chenevix Trench, deu uma palestra na Sociedade Filológica de Londres e convenceu a plateia da necessidade de se elaborar um dicionário que fosse completo. Ele argumentou que a Inglaterra estava espalhando seu império e que o idioma era fundamental para consolidar esse domínio. O sacerdote entendia que faltava um dicionário que tratasse de todas as palavras igualmente e fosse capaz de facilitar a vida das pessoas no trato com a língua inglesa. Depois de algumas tentativas infrutíferas, em 1858, a Sociedade Filológica decidiu contratar um cidadão chamado James Murray, considerado genial devido aos seus conhecimentos de filologia.

Murray organizou uma equipe e começou a pedir que pessoas comuns enviassem contribuições, as quais eram recebidas, estudadas e devidamente catalogadas por sua equipe. As pessoas sentiam-se importantes quando suas contribuições eram aceitas. James calculou que terminaria a tarefa em dez anos, mas a primeira edição só foi publicada setenta anos depois, ou seja, em 1928. A segunda edição só foi publicada em 1989. Durante a preparação da primeira edição, aconteceu um fato digno de nota. Em 1890, quando o dicionário já estava na metade, a sociedade começou a homenagear os principais contribuidores. Eles eram chamados para receber medalhas. James Murray verificou que o maior colaborador – o Dr. William Minor – não compareceu.

Inconformado, James resolveu ir visitá-lo e agradecer pessoalmente. Quando chegou ao endereço fornecido, verificou que era um manicômio e que o Dr. Minor, seu principal colaborador, era um dos internos. O Dr. MInor era um ex-oficial do exército americano e, também, o interno mais antigo do manicômio. O filme O Gênio e o Louco, de 2019, protagonizado por Mel Gibson e Sean Pean, baseado no livro de Simon Winchester denominado O Professor e o Louco, de 1998 fala sobre o encontro desses dois homens de personalidades muito diferentes, que se se uniram em torno de uma grande causa. O filme e o livro contam brilhantemente a vida dos personagens Minor e Murray, mas eu arrisco dizer que o principal personagem dessa história continua sendo o Dicionário.

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